{"id":1457,"date":"2026-03-04T09:20:07","date_gmt":"2026-03-04T09:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1457"},"modified":"2026-05-27T10:06:10","modified_gmt":"2026-05-27T10:06:10","slug":"a-licao-do-kota-oscar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1457","title":{"rendered":"A Li\u00e7\u00e3o do Kota Oscar"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column]<div class=\"text-block\" ><div class=\"simple-text size-4\"><p>Por Rui Pinto Martins<\/p>\n<p>Come\u00e7o por pedir desculpa ao Professor Doutor \u00d3scar Monteiro \u2014 e fa\u00e7o-o antes que algum guardi\u00e3o dos t\u00edtulos, desses que em Mo\u00e7ambique tratam as rever\u00eancias como se fossem patrim\u00f3nio do Estado, me venha corrigir a ousadia \u2014 por lhe chamar simplesmente Kota Oscar. N\u00e3o \u00e9 falta de respeito, muito menos esquecimento da sua estatura intelectual, pol\u00edtica e hist\u00f3rica. \u00c9 precisamente o contr\u00e1rio. Depois da aula de ontem, depois daquela forma rara de falar de Samora, do Estado, do povo e de n\u00f3s pr\u00f3prios sem a rigidez das c\u00e1tedras nem a vaidade das proclama\u00e7\u00f5es, o \u201cProfessor Doutor\u201d ficou-me demasiado distante, demasiado engomado, demasiado pequeno para a dimens\u00e3o humana do que ali aconteceu. \u201cKota Oscar\u201d \u00e9 mais verdadeiro. Tem proximidade, tem afecto, tem reconhecimento, tem essa autoridade antiga que n\u00e3o precisa de se anunciar porque se imp\u00f5e pelo que diz, pelo que viveu e pelo modo como ainda \u00e9 capaz de nos devolver ao essencial.<\/p>\n<p>E o essencial, ontem, n\u00e3o foi apenas Samora Machel. Foi Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>Foi Mo\u00e7ambique como promessa, como ferida, como mem\u00f3ria tra\u00edda, como possibilidade ainda n\u00e3o perdida. Foi esse pa\u00eds que muitos de n\u00f3s trazemos dentro do peito com uma mistura dif\u00edcil de explicar: amor, raiva, orgulho, desilus\u00e3o, teimosia, m\u00e1goa, perten\u00e7a. O pa\u00eds que nos ensinaram a amar e que depois fomos vendo ser arrastado para a pequena feira dos interesses, para a captura por elites, para a corrup\u00e7\u00e3o feita sistema, para o nepotismo mascarado de confian\u00e7a, para a mediocridade promovida por obedi\u00eancia, para a ladroagem tratada como esperteza, para a exclus\u00e3o dos que n\u00e3o aceitam dobrar a espinha.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da aula do Kota Oscar com um sentimento que h\u00e1 muito n\u00e3o sentia assim, inteiro, quase f\u00edsico: orgulho. N\u00e3o o orgulho ing\u00e9nuo de quem fecha os olhos ao que somos, mas o orgulho mais dif\u00edcil, mais adulto, mais doloroso, de quem sabe tudo o que se perdeu e, ainda assim, se recusa a desistir. Orgulho de ser mo\u00e7ambicano. Orgulho de ainda guardar dentro de mim esse samorismo convicto, assumido, absoluto, n\u00e3o como filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, n\u00e3o como nostalgia de cartaz, n\u00e3o como saudade pregui\u00e7osa de um tempo que tamb\u00e9m teve as suas contradi\u00e7\u00f5es, mas como \u00e9tica, como b\u00fassola, como recusa de aceitar que a pol\u00edtica seja apenas uma t\u00e9cnica de saque com discurso patri\u00f3tico.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou da Frelimo. Digo-o sem agressividade e sem pedir licen\u00e7a. Mas sou samorista. E talvez isso incomode alguns precisamente porque separa Samora da propriedade partid\u00e1ria, devolvendo-o ao lugar onde ele \u00e9 maior: a consci\u00eancia nacional. Samora n\u00e3o cabe em nenhuma secretaria, em nenhum comit\u00e9, em nenhum palanque, em nenhuma cerim\u00f3nia organizada para o tornar inofensivo. Samora \u00e9 demasiado perigoso para ser apenas homenageado. Samora cobra. Samora interrompe. Samora olha-nos de frente e pergunta, sem delicadeza protocolar: o que fizeram do povo? O que fizeram do Estado? O que fizeram da independ\u00eancia? O que fizeram da vergonha?<\/p>\n<p>A grande li\u00e7\u00e3o do Kota Oscar foi ter-nos devolvido esse Samora. N\u00e3o o Samora embalsamado nas frases oficiais, mas o Samora intelectual, o Samora construtor de Estado, o Samora que compreendeu que a independ\u00eancia pol\u00edtica, sem transforma\u00e7\u00e3o moral e social, podia acabar sequestrada pelos mesmos mecanismos de privil\u00e9gio que dizia combater. O Samora que sabia que o Estado herdado do colonialismo n\u00e3o podia ser apenas ocupado por novos rostos. Tinha de ser reinventado. Porque o Estado colonial fora desenhado para dominar, separar, explorar e humilhar; o Estado mo\u00e7ambicano tinha de nascer para educar, curar, unir, produzir dignidade, reduzir desigualdades e chamar o povo para dentro da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando o Kota Oscar disse, ou nos fez perceber com clareza, que o Estado ou \u00e9 popular ou n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, tocou talvez no ponto mais fundo da nossa crise. Um Estado pode durar muitos anos sem ser verdadeiramente popular. Pode ter bandeira, hino, pol\u00edcia, or\u00e7amento, ministros, leis, tribunais, cerim\u00f3nias, carros com sirene, discursos sobre desenvolvimento e fotografias de inaugura\u00e7\u00e3o. Mas se o povo n\u00e3o se reconhece nele, se o cidad\u00e3o o sente como coisa distante, se a juventude o v\u00ea como parede, se o campon\u00eas o encontra apenas quando \u00e9 cobrado, se o funcion\u00e1rio honesto \u00e9 humilhado, se o competente \u00e9 afastado por n\u00e3o pertencer \u00e0 rede certa, se o pobre s\u00f3 aparece nas estat\u00edsticas e nas campanhas, esse Estado j\u00e1 come\u00e7ou a morrer por dentro, mesmo que por fora continue a desfilar.<\/p>\n<p>O Estado popular de que se falou n\u00e3o \u00e9 a caricatura da multid\u00e3o convocada para bater palmas. N\u00e3o \u00e9 o povo usado como decora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o bairro chamado para legitimar decis\u00f5es j\u00e1 tomadas. N\u00e3o \u00e9 a cultura reduzida a dan\u00e7a antes do discurso. \u00c9 outra coisa. \u00c9 o Estado que se deixa atravessar pela vida real das pessoas. \u00c9 o Estado que escuta antes de ordenar. \u00c9 o Estado que sabe que governar n\u00e3o \u00e9 distribuir favores, mas garantir direitos. \u00c9 o Estado que compreende que a legitimidade n\u00e3o nasce apenas do voto, mas da confian\u00e7a, da presen\u00e7a, da justi\u00e7a, da capacidade de olhar para o \u00faltimo cidad\u00e3o e dizer: tu tamb\u00e9m \u00e9s raz\u00e3o da minha exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Por isso a refer\u00eancia \u00e0 Lei n.\u00ba 1\/77 e \u00e0s Assembleias do Povo foi t\u00e3o importante. N\u00e3o como saudade de um modelo pol\u00edtico que pertence ao seu tempo, com os seus limites e as suas contradi\u00e7\u00f5es, mas como lembran\u00e7a de uma pergunta que continua viva: como \u00e9 que o povo participa no poder? Como \u00e9 que o cidad\u00e3o deixa de ser plateia? Como \u00e9 que a aldeia, o bairro, o distrito, a escola, a f\u00e1brica, o mercado, a associa\u00e7\u00e3o cultural, a juventude, a mulher, o trabalhador, o campon\u00eas, entram na constru\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o como figurantes, mas como sujeitos?<\/p>\n<p>Aquele momento hist\u00f3rico tinha uma intui\u00e7\u00e3o poderosa: a independ\u00eancia n\u00e3o podia ser apenas proclamada de cima. Tinha de ser apropriada por baixo. O povo tinha de sentir que a p\u00e1tria n\u00e3o era uma palavra guardada nos gabinetes, mas uma responsabilidade nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Hoje vivemos outro tempo, felizmente plural, felizmente aberto \u00e0 cr\u00edtica, felizmente obrigado a conviver com diferen\u00e7as. Mas a pergunta continua a perseguir-nos: que democracia \u00e9 esta se o povo vota e depois desaparece? Que democracia \u00e9 esta se o cidad\u00e3o s\u00f3 \u00e9 soberano no dia em que p\u00f5e o dedo na tinta e volta a ser s\u00fabdito no dia seguinte?<\/p>\n<p>O Kota Oscar falou tamb\u00e9m da mentalidade de cl\u00e3, e aqui a aula deixou de ser hist\u00f3ria para se tornar espelho. A fam\u00edlia \u00e9 casa, \u00e9 raiz, \u00e9 protec\u00e7\u00e3o, \u00e9 a primeira escola do afecto. Mas quando a l\u00f3gica da fam\u00edlia se instala na gest\u00e3o do bem p\u00fablico, quando o cl\u00e3 substitui a lei, quando a aldeia se torna crit\u00e9rio de nomea\u00e7\u00e3o, quando a etnia se disfar\u00e7a de confian\u00e7a pol\u00edtica, quando o apelido pesa mais do que o m\u00e9rito, quando a proximidade vale mais do que a compet\u00eancia, ent\u00e3o a na\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ser comida por dentro. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel organizar educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, justi\u00e7a, emprego, desenvolvimento e reconcilia\u00e7\u00e3o nacional com mentalidade de cl\u00e3. O cl\u00e3 salva os seus. O Estado deve servir todos. O cl\u00e3 distribui protec\u00e7\u00e3o. O Estado deve garantir igualdade. O cl\u00e3 pergunta: \u00e9s de quem? O Estado deve perguntar: qual \u00e9 o teu direito?<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a nossa trag\u00e9dia contempor\u00e2nea se revela com toda a sua viol\u00eancia silenciosa. Porque o que hoje chamamos corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas roubo de dinheiro. \u00c9 tamb\u00e9m o roubo do lugar do outro. \u00c9 o roubo da oportunidade. \u00c9 o roubo da confian\u00e7a. \u00c9 o roubo da esperan\u00e7a de um jovem que estudou, que se preparou, que ama o seu pa\u00eds, mas percebe que a porta se abre primeiro para o filho de algu\u00e9m, para o sobrinho de algu\u00e9m, para o camarada de algu\u00e9m, para o c\u00famplice de algu\u00e9m. A corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas no contrato desviado, na obra inflacionada, no concurso viciado. Est\u00e1 tamb\u00e9m no momento em que um pa\u00eds come\u00e7a a ensinar aos seus melhores filhos que a honestidade \u00e9 uma defici\u00eancia social.<\/p>\n<p>E quantos mo\u00e7ambicanos competentes, patriotas, trabalhadores, com vontade de servir, foram postos \u00e0 margem porque se recusaram a ser c\u00famplices? Quantos foram tratados como inc\u00f3modos porque n\u00e3o aceitaram a ladroagem? Quantos foram empurrados para a condi\u00e7\u00e3o de mo\u00e7ambicanos de segunda n\u00e3o por falta de amor \u00e0 p\u00e1tria, mas por excesso dele? H\u00e1 uma forma de exclus\u00e3o que n\u00e3o se anuncia. Apenas fecha portas. Retira convites. Apaga nomes. Desvia oportunidades. Coloca no centro os obedientes e deixa nas margens os que ainda t\u00eam espinha dorsal.<\/p>\n<p>Foi por isso que a aula do Kota Oscar nos tocou tanto. Porque, de certa forma, ela disse-nos: voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o loucos. N\u00e3o \u00e9 loucura exigir dec\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 ingenuidade acreditar que o Estado deve servir o povo. N\u00e3o \u00e9 romantismo recusar que Mo\u00e7ambique seja transformado em propriedade de elites. N\u00e3o \u00e9 atraso moral sentir vergonha diante da corrup\u00e7\u00e3o. Vergonha seria j\u00e1 n\u00e3o sentir nada.<\/p>\n<p>Samora avisou que o poder podia corromper at\u00e9 o homem mais firme. Esta frase, repetida tantas vezes, continua a ser uma das mais terr\u00edveis advert\u00eancias da nossa vida p\u00fablica. Terr\u00edvel porque n\u00e3o acusa apenas os outros. Acusa a pr\u00f3pria natureza do poder. O poder cerca, afaga, protege, isola, habitua, oferece facilidades, cria bajuladores, transforma homens simples em pequenas majestades. O poder convence o dirigente de que merece mais, de que sabe mais, de que sofre mais, de que pode mais. E, quando ningu\u00e9m o corrige, quando o partido o protege, quando a fam\u00edlia lucra, quando os amigos comem, quando os cr\u00edticos se calam ou s\u00e3o afastados, o poder deixa de ser responsabilidade e torna-se v\u00edcio.<\/p>\n<p>Samora sabia disso. Por isso dizia que a tarefa p\u00fablica n\u00e3o podia ser privil\u00e9gio, nem meio de acumular bens, nem instrumento de distribui\u00e7\u00e3o de favores. O dirigente devia ser o primeiro no sacrif\u00edcio e o \u00faltimo nos benef\u00edcios. Hoje, esta frase soa quase subversiva. Porque vivemos num tempo em que muitos querem ser primeiros em tudo: nos carros, nas casas, nas viagens, nos contratos, nas escolas dos filhos, nos hospitais fora do pa\u00eds, na protec\u00e7\u00e3o policial, na imunidade, no conforto. Primeiros em tudo, excepto na responsabilidade. A\u00ed desaparecem. A\u00ed n\u00e3o sabiam. A\u00ed foram mal informados. A\u00ed a culpa \u00e9 de um director, de uma comiss\u00e3o, de um t\u00e9cnico, de um inimigo, de uma circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixar Samora morrer come\u00e7a exactamente aqui: na recusa de transformar a sua mem\u00f3ria em ornamento. Samora n\u00e3o pode ser apenas retrato em reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nome de avenida, est\u00e1tua, marcha de ocasi\u00e3o, frase citada por quem depois pratica o contr\u00e1rio. N\u00e3o deixar Samora morrer \u00e9 impedir que os que capturaram o Estado se escondam atr\u00e1s do seu nome. \u00c9 arrancar Samora das m\u00e3os dos oportunistas. \u00c9 devolv\u00ea-lo ao povo, \u00e0 escola, \u00e0 juventude, ao debate, \u00e0 cultura, \u00e0 cr\u00edtica, \u00e0 coragem c\u00edvica. \u00c9 fazer da sua mem\u00f3ria n\u00e3o um altar, mas uma ferramenta. N\u00e3o um culto, mas uma exig\u00eancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso a reconcilia\u00e7\u00e3o de que o Kota Oscar falou n\u00e3o pode ser mais uma palavra bonita no nosso dicion\u00e1rio de conveni\u00eancias. Reconciliar n\u00e3o \u00e9 fingir. N\u00e3o \u00e9 juntar pessoas numa sala, tirar fotografia e declarar encerrada a dor. Reconciliar \u00e9 ter coragem de olhar olhos nos olhos. \u00c9 falar das guerras vis\u00edveis e das guerras escondidas. Das feridas \u00e9tnicas que fingimos n\u00e3o existir. Dos ressentimentos regionais que circulam em voz baixa. Das exclus\u00f5es que se transmitem como heran\u00e7a. Das mem\u00f3rias que n\u00e3o entraram nos livros. Das humilha\u00e7\u00f5es que n\u00e3o foram reparadas. Dos mo\u00e7ambicanos que continuam a sentir que a p\u00e1tria lhes pede lealdade, mas n\u00e3o lhes devolve perten\u00e7a.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds n\u00e3o se cura com sil\u00eancio. O sil\u00eancio apenas organiza melhor o regresso da doen\u00e7a. A unidade nacional n\u00e3o \u00e9 uma tampa sobre a panela. \u00c9 a capacidade de suportarmos a fervura da verdade sem deixarmos a casa arder. E talvez seja isso que nos falte: a coragem de dizer uns aos outros aquilo que nos separa antes que aquilo que nos separa volte a transformar-se em viol\u00eancia. Falar n\u00e3o para dividir; falar para impedir que a mentira nos divida por baixo.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o nacionalista que saiu daquela aula recusava a partilha de Mo\u00e7ambique em pequenos quintais. Recusava a p\u00e1tria transformada em condom\u00ednio de fam\u00edlias, fac\u00e7\u00f5es, etnias, grupos econ\u00f3micos, partidos ou gera\u00e7\u00f5es que se julgam propriet\u00e1rias da independ\u00eancia. Mo\u00e7ambique n\u00e3o pode ser uma heran\u00e7a administrada por poucos. N\u00e3o pode ser recompensa privada de uma hist\u00f3ria colectiva. N\u00e3o pode ser mapa de influ\u00eancias. Mo\u00e7ambique tem de ser maior do que os nossos medos, maior do que as nossas aldeias, maior do que os nossos apelidos, maior do que os nossos partidos, maior do que os nossos mortos.<\/p>\n<p>E, no entanto, \u00e9 aos mortos que voltamos quando os vivos nos decepcionam. Voltamos a Samora n\u00e3o porque queiramos viver no passado, mas porque o presente se tornou pequeno demais para a grandeza da promessa que herd\u00e1mos. Voltamos a Samora porque nele encontramos uma linguagem de exig\u00eancia que foi desaparecendo. Uma ideia de servi\u00e7o. Uma severidade moral. Uma pedagogia p\u00fablica. Um modo de dizer ao povo que a p\u00e1tria era sua, mas que ser dono da p\u00e1tria significava tamb\u00e9m trabalhar, estudar, produzir, sacrificar, participar, construir.<\/p>\n<p>Confesso que, nascido em 1980, filho dessa independ\u00eancia que me impede de ser outra coisa antes de ser mo\u00e7ambicano, senti que esta aula pecou por tardia. E digo isto com gratid\u00e3o, n\u00e3o com ingratid\u00e3o. Onde estavam os Kota Oscars quando a mem\u00f3ria de Samora foi sendo delapidada? Onde estavam as vozes que podiam ter dito mais cedo que o pa\u00eds se desviava? Onde estavam os que sabiam quando tantos de n\u00f3s, mais novos, \u00e9ramos tratados como exagerados por dizermos que a corrup\u00e7\u00e3o estava a comer a alma do Estado? Talvez alguns estivessem a falar e n\u00f3s n\u00e3o os ouv\u00edssemos. Talvez outros falassem em lugares onde a sua voz n\u00e3o chegava. Talvez a hist\u00f3ria seja sempre injusta com quem chega tarde \u00e0 nossa dor. Mas a pergunta fica, porque tamb\u00e9m ela faz parte do amor ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ainda assim, obrigado, Kota Oscar. Obrigado porque ontem a sua aula n\u00e3o nos trouxe apenas conhecimento. Trouxe-nos companhia. E h\u00e1 momentos em que uma na\u00e7\u00e3o precisa de companhia moral. Precisa que algu\u00e9m lhe diga que a sua indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima. Que a sua tristeza tem raz\u00e3o. Que a sua recusa de se vender n\u00e3o \u00e9 estupidez. Que continuar a acreditar n\u00e3o \u00e9 fraqueza. Que a palavra povo ainda pode ser limpa, apesar de tantos a terem usado com as m\u00e3os sujas.<\/p>\n<p>O que saiu daquela aula foi mais do que mem\u00f3ria. Foi uma esp\u00e9cie de chamamento. Um chamamento para voltarmos a pensar o Estado como instrumento de progresso, e n\u00e3o como balc\u00e3o de benef\u00edcios. Para pensarmos a cultura n\u00e3o como enfeite de cerim\u00f3nia, mas como desenvolvimento social, como consci\u00eancia, como forma\u00e7\u00e3o de cidadania, como lugar onde um povo aprende a dizer quem \u00e9 e o que j\u00e1 n\u00e3o aceita ser. Cultura \u00e9 tamb\u00e9m isto: impedir que nos roubem a mem\u00f3ria, a vergonha, a linguagem e a capacidade de sonhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixar Samora morrer \u00e9, portanto, uma tarefa cultural, moral e pol\u00edtica. \u00c9 ensinar aos jovens que a independ\u00eancia n\u00e3o foi feita para criar novos donos, mas para acabar com a condi\u00e7\u00e3o de dono. \u00c9 lembrar aos dirigentes que o Estado n\u00e3o \u00e9 casa de fam\u00edlia. \u00c9 dizer aos partidos que a p\u00e1tria n\u00e3o cabe nas suas sedes. \u00c9 dizer \u00e0s elites que a paci\u00eancia do povo n\u00e3o \u00e9 autoriza\u00e7\u00e3o para o saque. \u00c9 dizer aos corruptos que podem comprar sil\u00eancios, mas n\u00e3o comprar a hist\u00f3ria. \u00c9 dizer aos que foram afastados por serem honestos que a sua derrota aparente talvez seja a \u00faltima reserva de dignidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Samora n\u00e3o morreu no dia em que caiu o avi\u00e3o. Essa foi a morte do corpo. A morte verdadeira de Samora aconteceria se aceit\u00e1ssemos que o Estado fosse capturado e fic\u00e1ssemos calados. Aconteceria se cham\u00e1ssemos esperteza \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Aconteceria se confund\u00edssemos medo com prud\u00eancia. Aconteceria se deix\u00e1ssemos que os seus discursos fossem citados por bocas que perderam a vergonha. Aconteceria se ensin\u00e1ssemos aos nossos filhos que o caminho \u00e9 procurar padrinho, n\u00e3o m\u00e9rito; protec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o trabalho; atalho, n\u00e3o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas Samora vive enquanto houver quem se indigne. Vive enquanto houver quem diga n\u00e3o. Vive enquanto houver um mo\u00e7ambicano capaz de perder uma oportunidade para n\u00e3o perder a alma. Vive enquanto houver quem olhe para este pa\u00eds, ferido e saqueado, e ainda assim n\u00e3o consiga abandon\u00e1-lo. Vive enquanto houver quem repita \u201ca luta continua\u201d n\u00e3o como palavra antiga, mas como compromisso presente.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o do Kota Oscar foi essa: lembrar-nos que a p\u00e1tria ainda nos pode doer, e que essa dor, quando n\u00e3o se transforma em cinismo, \u00e9 uma forma de esperan\u00e7a. Doeu ouvir. Doeu reconhecer. Doeu perceber o tamanho da dist\u00e2ncia entre o sonho e o pa\u00eds que temos. Mas tamb\u00e9m levantou qualquer coisa dentro de n\u00f3s. Uma esp\u00e9cie de orgulho antigo. Uma vontade de endireitar a coluna. Uma certeza de que n\u00e3o somos n\u00f3s que estamos fora do lugar; fora do lugar est\u00e1 um pa\u00eds onde o oportunismo se senta \u00e0 mesa principal e a honestidade espera \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Por isso, sim, a luta continua. Continua contra a corrup\u00e7\u00e3o, contra o nepotismo, contra a captura do Estado, contra a mediocridade arrogante, contra a partilha tribal da p\u00e1tria, contra o esquecimento fabricado, contra a desist\u00eancia. Continua tamb\u00e9m dentro de n\u00f3s, contra o cansa\u00e7o, contra a tenta\u00e7\u00e3o de calar, contra a vontade de ir embora por dentro antes de ir embora de facto. Continua na cultura, na palavra, na mem\u00f3ria, na educa\u00e7\u00e3o, na coragem de falar com o povo e pelo povo.<\/p>\n<p>E se ontem a aula do Kota Oscar nos devolveu alguma coisa, foi isto: a certeza de que ainda vale a pena ser mo\u00e7ambicano com exig\u00eancia. Ainda vale a pena recusar a humilha\u00e7\u00e3o de aceitar pouco de um pa\u00eds que nasceu de uma promessa t\u00e3o grande. Ainda vale a pena dizer que Samora n\u00e3o \u00e9 passado enquanto houver futuro por libertar.<\/p>\n<p>Porque h\u00e1 homens que morrem quando deixam de respirar, e h\u00e1 homens que s\u00f3 morrem quando o povo deixa de precisar deles. Samora continua a ser preciso. N\u00e3o como est\u00e1tua. N\u00e3o como santo. N\u00e3o como propriedade. Como fogo. Como cobran\u00e7a. Como vergonha na cara dos que se servem. Como for\u00e7a no peito dos que ainda querem servir.<\/p>\n<p>Essa foi a li\u00e7\u00e3o do Kota Oscar: Samora vive se n\u00f3s n\u00e3o desistirmos de merecer Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<\/div><\/div>[\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1462,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[69],"tags":[],"class_list":["post-1457","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1457","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1457"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1457\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1464,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1457\/revisions\/1464"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1462"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/f4sd.org.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}