{"id":1328,"date":"2026-03-05T12:00:00","date_gmt":"2026-03-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1328"},"modified":"2026-03-06T10:25:24","modified_gmt":"2026-03-06T10:25:24","slug":"luisa-diogo-a-presidente-que-nao-tivemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1328","title":{"rendered":"Lu\u00edsa Diogo, a Presidente que n\u00e3o tivemos"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1328\" class=\"elementor elementor-1328\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-18d6f0ba elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"18d6f0ba\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-4d5a8d3c\" data-id=\"4d5a8d3c\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3c73c2be elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3c73c2be\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n<p><em><strong>Por Ant\u00f3nio Souto<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O desaparecimento f\u00edsico de Lu\u00edsa Diogo toca-me profundamente. Estou triste.<br>Essa tristeza impele-me a escrever este depoimento pessoal n\u00e3o apenas como homenagem, mas como reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre uma oportunidade hist\u00f3rica que Mo\u00e7ambique perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O perfil p\u00fablico de Lu\u00edsa Diogo est\u00e1 hoje espalhado por in\u00fameros sites, comunicados oficiais e notas de pesar. N\u00e3o h\u00e1 institui\u00e7\u00e3o relevante nem figura pol\u00edtica que ignore o seu desaparecimento. Reconhece-se nela a primeira mulher a chefiar o Governo, a economista rigorosa, a dirigente respeitada nos c\u00edrculos internacionais, a voz activa na luta pela igualdade de g\u00e9nero e no combate ao HIV\/SIDA. Tudo isso \u00e9 verdadeiro e suficiente para justificar uma homenagem nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas interessa-me aqui recordar Lu\u00edsa Diogo noutra vertente, menos celebrat\u00f3ria e mais exigente: a dirigente de Estado que soube combinar compet\u00eancia t\u00e9cnica, coragem pol\u00edtica e sentido institucional, num per\u00edodo decisivo da nossa hist\u00f3ria econ\u00f3mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Conheci Lu\u00edsa Diogo ainda nos tempos de alguma conviv\u00eancia acad\u00e9mica na Universidade Eduardo Mondlane e acompanhei, mais tarde, a sua traject\u00f3ria como dirigente p\u00fablica. Muitos dos que com ela trabalharam partilham a mesma percep\u00e7\u00e3o: rigor, sobriedade, capacidade de ouvir e uma rara no\u00e7\u00e3o de interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre Fevereiro e Mar\u00e7o de 2000, Mo\u00e7ambique foi atingido por cheias catastr\u00f3ficas no Sul e Centro do pa\u00eds, agravadas pelo ciclone Eline. \u00c0 \u00e9poca, Lu\u00edsa Diogo era Ministra do Plano e Finan\u00e7as. Coube-lhe coordenar, no plano econ\u00f3mico e financeiro, uma resposta que ia muito al\u00e9m da emerg\u00eancia humanit\u00e1ria. Foi nesse contexto que o Governo declarou o estado de desastre nacional e lan\u00e7ou o <strong>Programa de Reconstru\u00e7\u00e3o P\u00f3s-Cheias de 2000<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a sua lideran\u00e7a t\u00e9cnica, e com a diplomacia pol\u00edtica firme e cred\u00edvel do Presidente Joaquim Chissano, Mo\u00e7ambique mobilizou centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares junto do Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, Uni\u00e3o Europeia e v\u00e1rios parceiros bilaterais.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dirigente da AMECON nessa altura, tive a honra de participar numa reuni\u00e3o em que Lu\u00edsa Diogo apresentou \u00e0 ent\u00e3o Directora da USAID em Maputo, Cynthia Rozell, a urg\u00eancia de criar um mecanismo espec\u00edfico de apoio ao sector privado nacional, duramente afectado. Pouco tempo depois, Mo\u00e7ambique recebeu um fundo da ordem de USD 9,7 milh\u00f5es, integrado no programa ER:ACT \u2013 Emergency Recovery: Agriculture and Commercial Trade.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, esses recursos foram canalizados atrav\u00e9s da banca comercial. Rapidamente se constatou que os bancos n\u00e3o estavam a responder \u00e0 dimens\u00e3o e urg\u00eancia da procura. Foi ent\u00e3o que, sob coordena\u00e7\u00e3o central de Lu\u00edsa Diogo e com a gest\u00e3o sectorial do Ministro da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio, Carlos Morgado, a Gapi foi chamada a operar uma linha espec\u00edfica para pequenas e m\u00e9dias empresas, com cr\u00e9ditos at\u00e9 USD 100 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em poucas semanas, a Gapi financiou cerca de 80 PMEs, num montante total de 75 milh\u00f5es de meticais, o que correspondia ent\u00e3o a cerca de USD 3,2 milh\u00f5es. Este epis\u00f3dio ilustra bem uma convic\u00e7\u00e3o profunda de Lu\u00edsa Diogo: sem instrumentos financeiros ajustados \u00e0 realidade das PMEs nacionais, a reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica seria sempre incompleta.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, Lu\u00edsa Diogo liderou um dos processos mais decisivos da nossa hist\u00f3ria recente: a negocia\u00e7\u00e3o do al\u00edvio da d\u00edvida externa no \u00e2mbito da Iniciativa HIPC. At\u00e9 ao <em>completion point<\/em>, Mo\u00e7ambique obteve um perd\u00e3o de cerca de USD 2,27 mil milh\u00f5es, criando espa\u00e7o or\u00e7amental in\u00e9dito. Nos primeiros anos do novo mil\u00e9nio, o Estado poupou em m\u00e9dia USD 100 milh\u00f5es por ano em servi\u00e7o da d\u00edvida, recursos que puderam ser canalizados para infra-estruturas econ\u00f3micas e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa sublinhar que este percurso n\u00e3o foi feito em submiss\u00e3o acr\u00edtica \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods. Lu\u00edsa Diogo dominava como poucos a arte de \u201cacatar, mas ajustar\u201d: aceitava os grandes enquadramentos macroecon\u00f3micos exigidos pelo FMI, mas trabalhava incansavelmente para introduzir adapta\u00e7\u00f5es institucionais compat\u00edveis com a realidade mo\u00e7ambicana. O Decreto 31\/2006, que criou espa\u00e7o jur\u00eddico para institui\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o banc\u00e1rias com miss\u00e3o de desenvolvimento, \u00e9 um exemplo claro dessa habilidade pol\u00edtica e t\u00e9cnica \u2014 uma excep\u00e7\u00e3o deliberada, subtil, mas decisiva, dentro de um quadro liberal r\u00edgido.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi precisamente esta combina\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia t\u00e9cnica, integridade pessoal e autonomia pol\u00edtica que tornou Lu\u00edsa Diogo uma figura profundamente inc\u00f3moda para sectores cada vez mais influentes no interior do partido no poder. Ela representava um obst\u00e1culo real \u00e0 captura do Estado por redes de interesses econ\u00f3micos e financeiros que, a partir do final da primeira d\u00e9cada deste mil\u00e9nio, passaram a encarar o poder pol\u00edtico como instrumento de acumula\u00e7\u00e3o privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00edsa Diogo n\u00e3o se deixou cooptar. N\u00e3o participou no sistema de promiscuidade entre neg\u00f3cios, financiamento pol\u00edtico e decis\u00f5es p\u00fablicas. N\u00e3o aceitou a l\u00f3gica de compra de influ\u00eancia, de distribui\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as como favores pol\u00edticos, nem o endividamento do Estado fora de qualquer escrut\u00ednio institucional. <strong>Esse foi o seu verdadeiro \u201cpecado pol\u00edtico\u201d<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi precisamente por isso que, no in\u00edcio do segundo mandato de Armando Guebuza, foi afastada do cargo de Primeira-Ministra. A sua sa\u00edda n\u00e3o foi um acto neutro nem uma simples rota\u00e7\u00e3o de quadros. Foi uma condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica necess\u00e1ria para que o Estado pudesse ser desarmado por dentro. Sem Lu\u00edsa Diogo no centro da governa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, abriu-se caminho para o colapso deliberado da disciplina or\u00e7amental, para a opacidade nas finan\u00e7as p\u00fablicas e, poucos anos depois, para o endividamento ilegal do Estado que viria a materializar-se nas chamadas d\u00edvidas ocultas.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a sua aus\u00eancia facilitou o desmando generalizado na atribui\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as mineiras, muitas vezes sem crit\u00e9rios transparentes, bem como o saque sistem\u00e1tico das florestas e dos recursos marinhos, onde entidades estrangeiras, com a cumplicidade activa de pol\u00edticos nacionais membros de uma oligarquia emergente, exploraram recursos estrat\u00e9gicos em troca de rendas privadas e comiss\u00f5es il\u00edcitas. O interesse p\u00fablico foi substitu\u00eddo por acordos obscuros, e o Estado transformado em intermedi\u00e1rio fr\u00e1gil de interesses alheios.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio pol\u00edtico repetiu-se em 2014, quando, no seio da Frelimo, se discutiu a sucess\u00e3o presidencial. Apesar do apoio que Lu\u00edsa Diogo reuniu junto de sectores reformistas e da ala ligada a Joaquim Chissano, voltou a ser travada. O poder do dinheiro, das alian\u00e7as informais e das fidelidades compradas prevaleceu sobre o m\u00e9rito, a experi\u00eancia e a credibilidade. O partido libertador escolheu proteger os interesses da oligarquia em consolida\u00e7\u00e3o em vez de apostar numa lideran\u00e7a \u00e9tica e institucionalmente s\u00f3lida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que o t\u00edtulo deste texto n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rico nem nost\u00e1lgico.<br><strong>Lu\u00edsa Diogo foi, de facto, a Presidente que n\u00e3o nos deixaram ter.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao afast\u00e1-la da chefia do Governo e ao impedir a sua elei\u00e7\u00e3o como Presidente da Rep\u00fablica, Mo\u00e7ambique <strong>perdeu uma oportunidade hist\u00f3rica de consolidar um Estado respons\u00e1vel, soberano e orientado para o desenvolvimento inclusivo<\/strong>. O pa\u00eds seguiu outro caminho \u2014 o da captura do partido, da pilhagem dos recursos naturais, do endividamento criminoso e da eros\u00e3o profunda da confian\u00e7a entre governantes e cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, perante um Estado fragilizado, uma economia vulner\u00e1vel, uma juventude frustrada e uma sociedade em tens\u00e3o permanente, <strong>pagamos caro essa escolha<\/strong>. N\u00e3o foi uma inevitabilidade hist\u00f3rica, porque <strong>uma alternativa existiu \u2014 foi conhecida, foi testada \u2014 e foi conscientemente afastada<\/strong>.<\/p>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ant\u00f3nio Souto O desaparecimento f\u00edsico de Lu\u00edsa Diogo toca-me profundamente. 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