{"id":1275,"date":"2025-12-19T13:06:00","date_gmt":"2025-12-19T13:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1275"},"modified":"2026-03-06T10:40:07","modified_gmt":"2026-03-06T10:40:07","slug":"repensar-a-estrategia-de-desenvolvimento-inclusivo-de-mocambique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1275","title":{"rendered":"Repensar a Estrat\u00e9gia de Desenvolvimento Inclusivo de Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Nota Introdut\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assumir hoje o compromisso de partilhar reflex\u00f5es no seman\u00e1rio <em>Savana<\/em> n\u00e3o resulta de um impulso moment\u00e2neo, mas de um percurso de vida que me coloca, quase inevitavelmente, na obriga\u00e7\u00e3o de contribuir para o debate p\u00fablico sobre os caminhos de Mo\u00e7ambique. Com mais de 70 anos, perten\u00e7o a um grupo et\u00e1rio que representa apenas cerca de 1% da popula\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds. Somos poucos os que, tendo j\u00e1 mais de 14 anos em 1974\u20131975, vivemos os Acordos de Lusaka e a proclama\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia. Hoje esse grupo \u00e9 de apenas 2,5% da popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana \u2014 uma mem\u00f3ria viva que n\u00e3o pode deixar de ser partilhada com as gera\u00e7\u00f5es mais jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de mais de cinco d\u00e9cadas de vida profissional, exerci diferentes profiss\u00f5es e fun\u00e7\u00f5es sempre em Mo\u00e7ambique, mas com muitas liga\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es e figuras de outros pa\u00edses. Essa diversidade levou-me a conviver e aprender de sociedades e culturas distintas, bem como com personagens que marcaram \u00e9pocas, tanto no campo pol\u00edtico como no econ\u00f3mico e social. Vivi momentos de entusiasmo e esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m per\u00edodos de desencanto e cr\u00edtica. Aplaudi algumas op\u00e7\u00f5es de governa\u00e7\u00e3o, questionei outras, e reconhe\u00e7o que nem sempre estive certo nas escolhas que defendi.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a partir desta viv\u00eancia \u2014 feita de erros, aprendizagens e experi\u00eancias acumuladas \u2014 que surge a motiva\u00e7\u00e3o para este exerc\u00edcio. O que me move \u00e9 uma pergunta simples e urgente: que li\u00e7\u00f5es podemos colher das estrat\u00e9gias seguidas pelas sucessivas governa\u00e7\u00f5es, ao longo de 50 anos de independ\u00eancia, que possam servir de inspira\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o sobretudo para os 82% da popula\u00e7\u00e3o que hoje tem menos de 35 anos?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda uma raz\u00e3o pessoal, de amizade e de compromisso \u00e9tico. No final de Dezembro de 2024, mantive com o Prof. Dr. Bernhard Weimer uma longa conversa, em Maputo, j\u00e1 ele fragilizado pela doen\u00e7a, mas intelectualmente l\u00facido. Relembr\u00e1mos o muito que, desde meados da d\u00e9cada de 1980, debatemos sobre os dilemas da economia pol\u00edtica e da governa\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique. Concord\u00e1mos, ent\u00e3o, que era urgente dar continuidade a essas reflex\u00f5es, atrav\u00e9s de escritos breves, capazes de estimular o surgimento de espa\u00e7os para um debate mais amplo sobre os caminhos de um desenvolvimento inclusivo. Pouco depois, Bernhard deixou-nos. Este conjunto de artigos \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de honrar esse compromisso que com ele assumi.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o que aqui se prop\u00f5e n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia nem de justifica\u00e7\u00e3o pessoal. \u00c9, sim, um esfor\u00e7o para transformar experi\u00eancia em mem\u00f3ria \u00fatil e mem\u00f3ria em reflex\u00e3o cr\u00edtica, ao servi\u00e7o de um futuro mais justo e inclusivo. Cada artigo, publicado semanalmente, abordar\u00e1 um tema espec\u00edfico ligado \u00e0 economia pol\u00edtica, \u00e0 governa\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento, procurando sempre olhar para a frente, mas sem perder de vista as li\u00e7\u00f5es do passado.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Atravessando D\u00e9cadas: Testemunho de Uma Gera\u00e7\u00e3o<\/h1>\n\n\n\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 um artigo de hist\u00f3ria econ\u00f3mica de Mo\u00e7ambique. \u00c9 antes um testemunho fundamentado, escrito a partir da experi\u00eancia e observa\u00e7\u00e3o de quem pertence \u00e0 chamada <strong>gera\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia<\/strong>.<br>Em 1974\/1975, as pessoas com mais de 20 anos representavam uma parcela reduzida da popula\u00e7\u00e3o e cerca de 90% eram analfabetos. Hoje, esse grupo et\u00e1rio tem mais de 70 anos e representa apenas cerca de 1,3% da popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse microcosmo demogr\u00e1fico, por vezes ignorado nas abordagens macro, foi essencial para garantir a transi\u00e7\u00e3o e continuidade tanto da gest\u00e3o p\u00fablica como privada. Foi essa gera\u00e7\u00e3o que, com pouca forma\u00e7\u00e3o formal, mas grande sentido de miss\u00e3o, abra\u00e7ou os desafios de construir um Estado, gerir empresas nacionalizadas e responder \u00e0s urg\u00eancias de uma sociedade em ruptura com o seu passado colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses jovens, abandonaram os seus projectos de carreiras promissoras ou estando ainda em fase de forma\u00e7\u00e3o, interromperam os seus estudos ou projectos pessoais para se colocarem ao servi\u00e7o das necessidades urgentes de um novo pa\u00eds: integrar o aparelho do Estado, substituir quadros coloniais, fundar institui\u00e7\u00f5es, organizar escolas, hospitais, f\u00e1bricas, reparti\u00e7\u00f5es, cooperativas e servi\u00e7os. Com erros e improvisa\u00e7\u00f5es, sim, mas tamb\u00e9m com uma not\u00e1vel entrega e sentido colectivo de responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os que viveram intensamente esse tempo, o que se segue poder\u00e1 soar redundante. Mas num momento em que se discute que caminhos seguir, que estrat\u00e9gias adoptar para um desenvolvimento mais inclusivo, estas mem\u00f3rias e reflex\u00f5es ganham nova utilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo deste texto, voltarei a este tema geracional. Nomeadamente, \u00e0 chamada gera\u00e7\u00e3o 8 de Mar\u00e7o, que correspondeu ao apelo lan\u00e7ado por Samora Machel em 1977 e que foi, na verdade, uma r\u00e9plica da atitude dos que, dois anos antes, tamb\u00e9m tinham interrompido os seus estudos para participarem na causa da cria\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds. Na iniciativa gera\u00e7\u00e3o 8 de Mar\u00e7o, foram formados muitos jovens, em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e agricultura. Em simult\u00e2neo e com a assist\u00eancia recebida de Cuba, que foi essencial neste processo de forma\u00e7\u00e3o de uma nova gera\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos, milhares de jovens com escolaridade prim\u00e1ria receberam forma\u00e7\u00e3o essencial para os desafios enfrentados pelo novo pa\u00eds que o Estado mo\u00e7ambicano n\u00e3o tinha capacidade de oferecer.<\/p>\n\n\n\n<p>E, mais adiante, surgiu a \u201cgera\u00e7\u00e3o da viragem\u201d, conceito introduzido por certos sectores dirigentes para legitimar uma mudan\u00e7a brusca de rumo, frequentemente associada ao surgimento de elites econ\u00f3micas beneficiadas pela abertura neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Socialismo de Emerg\u00eancia e o Estado Dominante (1975\u20131986)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A independ\u00eancia nacional foi celebrada como o ponto de partida de uma nova ordem, centrada na liberdade, autodetermina\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a social. Nesse contexto de entusiasmo revolucion\u00e1rio e ruptura com o passado colonial, a FRELIMO \u2014 desde logo a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria que assumiu a governa\u00e7\u00e3o, menos de dois anos depois da independ\u00eancia, regista-se como Partido Marxista-Leninista \u2014 e definiu um modelo de economia centralmente planificada, inspirado em experi\u00eancias socialistas e guiado por uma vis\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e radical da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A nacionaliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, incluindo a banca, seguros, a terra, institui\u00e7\u00f5es de ensino, o com\u00e9rcio, grandes unidades industriais, at\u00e9 as funer\u00e1rias, foi entendida como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para afirmar a soberania econ\u00f3mica e quebrar com as estruturas coloniais de depend\u00eancia. Tratava-se, tamb\u00e9m, de uma resposta \u00e0 evas\u00e3o dos antigos quadros coloniais e \u00e0 necessidade urgente de garantir o funcionamento dos servi\u00e7os essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado assumiu-se como agente central do desenvolvimento, criando empresas p\u00fablicas para responder a todas as fun\u00e7\u00f5es produtivas e sociais. Por\u00e9m, rapidamente se colocaram dilemas de capacidade, efici\u00eancia e sustentabilidade. As empresas estatais operavam em ambientes adversos, com recursos humanos escassos, pouca experi\u00eancia de gest\u00e3o e estruturas burocr\u00e1ticas pesadas. O planeamento econ\u00f3mico era voluntarista e nem sempre compat\u00edvel com a realidade produtiva do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A ineficiente gest\u00e3o econ\u00f3mica e a guerra de agress\u00e3o promovida pelos regimes racistas da Rod\u00e9sia e depois directamente pelo regime de apartheid da \u00c1frica do Sul arrasaram a economia. Foi o tempo do cart\u00e3o de abastecimento e das bichas desde madrugada para adquirir bens essenciais. Hoje, muitos jovens urbanos questionam: como foi poss\u00edvel sobreviver sem supermercados?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo interroguei-me, em sil\u00eancio, sobre o equil\u00edbrio entre idealismo e pragmatismo. N\u00e3o havia espa\u00e7o para grandes d\u00favidas \u2014 a linha pol\u00edtica era uma s\u00f3 \u2014 mas dentro de alguns como eu amadurecia a convic\u00e7\u00e3o de que o futuro de Mo\u00e7ambique dependeria menos de slogans e mais de saber construir institui\u00e7\u00f5es capazes, transparentes e orientadas para resultados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ajustamento Estrutural e Abertura ao Mercado (1987\u20131999)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f3mica da d\u00e9cada de 1980 levou o Governo a iniciar, a partir de 1987, o Programa de Reabilita\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica (PRE), posteriormente ampliado para o PRES \u2013 Programa de Reabilita\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica e Social. Sob orienta\u00e7\u00e3o do FMI e do Banco Mundial, estas reformas abriram caminho para um novo modelo: o do Estado facilitador de uma economia liberalizada.<\/p>\n\n\n\n<p>As medidas inclu\u00edram a liberaliza\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os, a redu\u00e7\u00e3o do papel directo do Estado na economia, a abertura ao investimento estrangeiro e a privatiza\u00e7\u00e3o em massa de empresas p\u00fablicas. A banca, o com\u00e9rcio e as telecomunica\u00e7\u00f5es foram alguns dos sectores que conheceram profundas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A par de ganhos em estabiliza\u00e7\u00e3o macroecon\u00f3mica e reanima\u00e7\u00e3o de alguma actividade privada, os custos sociais foram elevados: desemprego, precariedade, desigualdade crescente e desestrutura\u00e7\u00e3o de sectores produtivos locais. E digo de alguma actividade, pois nem toda, como aconteceu com o desmantelamento da importante ind\u00fastria de processamento do caj\u00fa, geradora de muitos milhares de empregos, principalmente em zonas rurais e periurbnas. Emergiram elites econ\u00f3micas com acesso privilegiado \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e aos processos de privatiza\u00e7\u00e3o, enquanto vastas camadas da popula\u00e7\u00e3o foram empurradas para a informalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Este foi tamb\u00e9m um per\u00edodo de redesenho do papel do Estado: de produtor directo para regulador e promotor. Mas nem sempre com capacidades institucionais ou recursos humanos \u00e0 altura dos desafios. A transi\u00e7\u00e3o foi feita de forma abrupta, por vezes descoordenada, e nem sempre suficientemente ancorada em diagn\u00f3sticos realistas da economia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, foi neste per\u00edodo que o poderoso regime de apartheid desapareceu da nossa sempre amea\u00e7ada vizinhan\u00e7a e, consequentemente, tamb\u00e9m se p\u00f4s fim \u00e0 guerra fratricida entre mo\u00e7ambicanos que ao longo de 16 anos mataram e destru\u00edram importantes infraestruturas sociais e econ\u00f3micas.<\/p>\n\n\n\n<p>No final deste per\u00edodo, assistimos a caminhos diversos entre os que integraram a gera\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia. Alguns converteram-se em empres\u00e1rios, ou funcion\u00e1rios de organiza\u00e7\u00f5es internacionais, outros optaram por se retirar da vida pol\u00edtica activa ou seguiram carreiras t\u00e9cnicas em institui\u00e7\u00f5es de consultoria e universidades. Muitissimo poucos prosseguiram a sua milit\u00e2ncia como funcion\u00e1rios da m\u00e1quina do partido \u00fanico. Cada traject\u00f3ria trouxe consigo aprendizagens e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crescimento Econ\u00f3mico com Mega-Projectos (2000\u20132015)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a paz assinada e os equil\u00edbrios macroecon\u00f3micos restabelecidos, Mo\u00e7ambique atraiu grandes fluxos de investimento externo, sobretudo nos sectores de recursos naturais e infraestruturas. Mega-projectos como a fundi\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio (MOZAL), a explora\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o em Tete, as areias pesadas de Moma e os projectos de g\u00e1s natural em Inhambane e na bacia do Rovuma posicionaram o pa\u00eds como destino emergente de capitais globais.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado, na expectativa de um \u201cefeito derrame\u201d sobre o resto da economia, ofereceu isen\u00e7\u00f5es fiscais, regimes especiais e infraestruturas dedicadas. Apesar do dinamismo induzido em certos centros urbanos, os encadeamentos produtivos foram fracos, e o impacto sobre o emprego e a inclus\u00e3o econ\u00f3mica permaneceu limitado.<\/p>\n\n\n\n<p>O crescimento m\u00e9dio do PIB mascarava fragilidades estruturais: uma base produtiva estreita, forte depend\u00eancia da importa\u00e7\u00e3o, defici\u00eancias log\u00edsticas e um sector agr\u00edcola estagnado. As desigualdades territoriais acentuaram-se, e a pobreza permaneceu resiliente.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi tamb\u00e9m neste per\u00edodo que surgiram e se consolidaram importantes cart\u00e9is econ\u00f3micos ligados \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o de activos do pa\u00eds, ao surgimento de redes ligadas ao narcotr\u00e1fico, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de florestas naturais e \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de madeiras preciosas e muito mais. Notavelmente, alguma elite ligada \u00e0 direc\u00e7\u00e3o do partido FRELIMO apareceu profundamente ligada a estes neg\u00f3cios il\u00edcitos. Tamb\u00e9m notavelmente, filhos de alguns desses pol\u00edticos surgem como \u201cempres\u00e1rios de sucesso\u201d sem nunca terem sequer aprendido a gerir a sua pr\u00f3pria casa ou a dispensa da sua casa. A propaganda para justificar esta nova vaga de enriquecimento foi a de designar estas gentes como \u201cgera\u00e7\u00e3o da viragem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assassinatos de pessoas que buscavam a verdade e a transpar\u00eancia como Carlos Cardoso e Siba Siba Macu\u00e1cua, assim como de juristas e agress\u00f5es f\u00edsicas a acad\u00e9micos como Jos\u00e9 Macuaine s\u00e3o as mensagens desse regime e desse per\u00edodo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista selvagem e de poder pol\u00edtico incontest\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, este foi um per\u00edodo de grande perda de valores \u00e9ticos e morais, que pessoas como eu, pertencentes \u00e0 gera\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, olham com preocupa\u00e7\u00e3o pelos seus efeitos nas gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crise de Confian\u00e7a e Recome\u00e7os Dif\u00edceis (2016\u20132024)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A descoberta das d\u00edvidas ocultas em 2016 representou uma ruptura grave na traject\u00f3ria econ\u00f3mica e institucional do pa\u00eds. A perda de confian\u00e7a dos doadores e mercados, a suspens\u00e3o de apoios or\u00e7amentais e a degrada\u00e7\u00e3o da imagem internacional de Mo\u00e7ambique tiveram impactos profundos e duradouros.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, importa reconhecer que as ra\u00edzes desta crise de confian\u00e7a n\u00e3o come\u00e7aram em 2016. J\u00e1 desde 2012, a lideran\u00e7a pol\u00edtico-partid\u00e1ria com poder cada vez mais absoluto come\u00e7ou a sobrepor-se a todo e qualquer mecanismo de controlo democr\u00e1tico e p\u00fablico. Foi nesse contexto que se armadilharam os esquemas de endividamento oculto, \u00e0 margem da Constitui\u00e7\u00e3o, com total opacidade e aus\u00eancia de escrut\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora toda a hist\u00f3ria p\u00f3s-independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique tenha conhecido epis\u00f3dios de m\u00e1 governa\u00e7\u00e3o, este per\u00edodo destacou-se pela magnitude da apropria\u00e7\u00e3o de fundos p\u00fablicos e pela sistem\u00e1tica eros\u00e3o dos princ\u00edpios democr\u00e1ticos. A governa\u00e7\u00e3o passou a centrar-se na manuten\u00e7\u00e3o do poder a todo o custo, reprimindo a oposi\u00e7\u00e3o e travando qualquer aprofundamento da descentraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A gravidade deste ambiente tornou-se bem evidente com o assassinato do jurista e acad\u00e9mico Gilles Cistac, defensor da autonomia local e das reformas institucionais. O seu desaparecimento marcou uma linha vermelha na luta entre um poder centralizado e as aspira\u00e7\u00f5es de uma sociedade mais plural e participativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Este esc\u00e2ndalo foi mais do que um erro de governa\u00e7\u00e3o: representou um crime de endividamento ilegal e doloso, cometido \u00e0 margem da Constitui\u00e7\u00e3o e sem qualquer transpar\u00eancia. As suas consequ\u00eancias ultrapassam o dom\u00ednio financeiro: para um pa\u00eds altamente dependente da Ajuda P\u00fablica ao Desenvolvimento (APD), a suspens\u00e3o dessa assist\u00eancia continua a ter efeitos grav\u00edssimos no acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, investimento p\u00fablico e confian\u00e7a externa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os Desafios do Presente e as Esperan\u00e7as do Futuro (2025 e al\u00e9m)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Atravessadas estas d\u00e9cadas, Mo\u00e7ambique tem agora oportunidade de redefinir as suas prioridades com base numa leitura honesta do passado<strong>. O desafio central \u00e9<\/strong> <strong>combinar crescimento com inclus\u00e3o, estabilidade com participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, e soberania com inser\u00e7\u00e3o inteligente no sistema global<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que temos para construir esse futuro? Felizmente, temos hoje um Presidente jovem, que provavelmente possui maior sensibilidade para entender as ansiedades e aspira\u00e7\u00f5es dos milh\u00f5es de jovens mo\u00e7ambicanos. No entanto, quando observamos quem o rodeia \u2014 como se viu na recente fotografia dos membros do Conselho de Estado \u2014 deparamo-nos com o peso simb\u00f3lico e real da gerontocracia dominante. Ainda que se diga que esse \u00f3rg\u00e3o tem um papel consultivo, basta olhar para a composi\u00e7\u00e3o da elite dirigente da FRELIMO e da sua comiss\u00e3o pol\u00edtica para perceber que a renova\u00e7\u00e3o geracional est\u00e1 longe de ser uma realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a idade por si s\u00f3 n\u00e3o define a capacidade de lideran\u00e7a, o exemplo de quem dirige a organiza\u00e7\u00e3o da juventude do partido ilustra bem as contradi\u00e7\u00f5es: discurso desajustado, postura desinspiradora, aus\u00eancia de escuta ativa. Tudo isso revela que os desafios da renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e \u00e9tica permanecem em aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, n\u00e3o devemos adoptar um posicionamento c\u00ednico ou derrotista \u2014 e de facto n\u00e3o o temos. Ao contr\u00e1rio, acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel construir novos caminhos, desde que haja escuta, debate informado e coragem de romper com pr\u00e1ticas gastas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que, nos pr\u00f3ximos artigos, iremos revisitar com esp\u00edrito cr\u00edtico e construtivo alguns documentos que orientam a actual fase da governa\u00e7\u00e3o: as pol\u00edticas p\u00fablicas de juventude e emprego, a Estrat\u00e9gia Nacional de Desenvolvimento (ENDE), a Estrat\u00e9gia Nacional de Inclus\u00e3o Financeira (ENIF), a Estrat\u00e9gia de Industrializa\u00e7\u00e3o (PRONAI),&nbsp; a pol\u00edtica externa e de coopera\u00e7\u00e3o, bem como as reformas indispens\u00e1veis no dom\u00ednio da governa\u00e7\u00e3o \u2014 tema que o saudoso Bernhard Weimer nos convidou insistentemente a aprofundar.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado no <em>Savana<\/em>, edi\u00e7\u00e3o 1623.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota Introdut\u00f3ria Assumir hoje o compromisso de partilhar reflex\u00f5es no seman\u00e1rio Savana n\u00e3o resulta de um impulso moment\u00e2neo, mas de um percurso de vida que me coloca, quase inevitavelmente, na obriga\u00e7\u00e3o de contribuir para o debate p\u00fablico sobre os caminhos de Mo\u00e7ambique. 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