{"id":1189,"date":"2025-06-10T07:32:22","date_gmt":"2025-06-10T07:32:22","guid":{"rendered":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1189"},"modified":"2025-07-18T08:57:20","modified_gmt":"2025-07-18T08:57:20","slug":"um-novo-banco-de-desenvolvimento-defendido-por-chapo-pode-ser-redundante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1189","title":{"rendered":"Banco de Desenvolvimento em Mo\u00e7ambique: Necessidade ou Ilus\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>O economista Ant\u00f3nio Souto entra no debate sobre a cria\u00e7\u00e3o de um Banco de Desenvolvimento em Mo\u00e7ambique, levantando quest\u00f5es cruciais sobre sua viabilidade, impacto e necessidade. Em meio a desafios econ\u00f3micos e sociais, Souto explora os pr\u00f3s e contras dessa institui\u00e7\u00e3o, questionando se o pa\u00eds est\u00e1 preparado para implement\u00e1-la e quais seriam os caminhos para garantir sua efic\u00e1cia. Acompenhe uma entrevista que ele concedeu \u00e0 Carta de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Carta de Mo\u00e7ambique \u2013 O pa\u00eds precisa de um banco de desenvolvimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Souto: A proposta de cria\u00e7\u00e3o de um banco de desenvolvimento levanta uma quest\u00e3o leg\u00edtima e relevante: que tipo de instrumentos o pa\u00eds precisa para financiar e impulsionar o seu desenvolvimento econ\u00f3mico e social? A resposta a esta pergunta n\u00e3o pode ser autom\u00e1tica nem simb\u00f3lica \u2014 precisa de ser precedida por um exerc\u00edcio s\u00e9rio de defini\u00e7\u00e3o de prioridades, avalia\u00e7\u00e3o de capacidades e clarifica\u00e7\u00e3o de mandatos institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mo\u00e7ambique precisa, sem d\u00favida, de um sistema de financiamento ao desenvolvimento mais eficaz, acess\u00edvel e alinhado com os objectivos de industrializa\u00e7\u00e3o, moderniza\u00e7\u00e3o da agricultura, gera\u00e7\u00e3o de emprego e redu\u00e7\u00e3o das desigualdades regionais. Mas \u00e9 necess\u00e1rio perguntar, com rigor:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>O que, em termos muito concretos, se pretende desenvolver?<\/li>\n\n\n\n<li>De onde vir\u00e3o os fundos para financiar essas prioridades?<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 mesmo necess\u00e1rio criar uma nova institui\u00e7\u00e3o para gerir esses fundos?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>J\u00e1 h\u00e1 umas duas d\u00e9cadas foi criado um banco estatal, o BNI. Contudo, o BNI n\u00e3o tem demonstrado nem voca\u00e7\u00e3o nem estrutura adequada para responder \u00e0s necessidades do tecido empresarial nacional. A sua actua\u00e7\u00e3o tem sido limitada, tanto em escala como em impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve ser discutido com transpar\u00eancia o porqu\u00ea de se avan\u00e7ar com a ideia de uma nova institui\u00e7\u00e3o, antes de se fazer uma avalia\u00e7\u00e3o p\u00fablica e t\u00e9cnica das limita\u00e7\u00f5es do BNI e do potencial de outras institui\u00e7\u00f5es, como a Gapi.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a quest\u00e3o \u201cprecisamos de um banco de desenvolvimento?\u201d s\u00f3 pode ser respondida com responsabilidade depois de se responder a perguntas ainda mais fundamentais sobre a estrat\u00e9gia de desenvolvimento do pa\u00eds, os meios dispon\u00edveis e os instrumentos mais adequados. S\u00f3 ent\u00e3o se poder\u00e1 determinar se uma nova institui\u00e7\u00e3o com estatuto de banco \u00e9 necess\u00e1ria \u2014 ou se estamos perante um risco de dispers\u00e3o institucional e duplica\u00e7\u00e3o de estruturas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 Como seria eficiente tal banco, para que fosse uma solu\u00e7\u00e3o s\u00f3lida?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: A efici\u00eancia de um eventual banco de desenvolvimento depender\u00e1, antes de tudo, da clareza quanto ao seu modelo institucional e operacional. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel garantir uma solu\u00e7\u00e3o s\u00f3lida sem definir, em primeiro lugar:<br>que tipo de institui\u00e7\u00e3o se pretende criar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se for um banco estatal de primeiro piso, ou seja, que concede cr\u00e9dito diretamente a MPMEs, isso levanta desafios s\u00e9rios de sustentabilidade financeira e governa\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Em muitos contextos \u2014 e Mo\u00e7ambique n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o \u2014 sabe-se que:<\/p>\n\n\n\n<p>Os mutu\u00e1rios, ao lidarem com uma institui\u00e7\u00e3o estatal, tendem a associar o cr\u00e9dito ao \u201cdinheiro do Estado\u201d e relaxam no cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es;<\/p>\n\n\n\n<p>Os gestores dessas institui\u00e7\u00f5es estatais, sem claros incentivos de performance e protegidos por uma cultura burocr\u00e1tica, muitas vezes agem com complac\u00eancia ou mesmo coniv\u00eancia com o incumprimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse risco moral mina a sustentabilidade do banco e descredibiliza a pol\u00edtica p\u00fablica de desenvolvimento. Por isso, uma solu\u00e7\u00e3o s\u00f3lida exige mais do que vontade pol\u00edtica: exige um modelo institucional vi\u00e1vel, capaz de combinar:<\/p>\n\n\n\n<p>Miss\u00e3o clara e limitada a \u00e1reas onde h\u00e1 falha de mercado (ex. agroind\u00fastria, juventude, inova\u00e7\u00e3o);<\/p>\n\n\n\n<p>Modelo operativo robusto, preferencialmente baseado em parcerias com institui\u00e7\u00f5es financeiras que j\u00e1 operam localmente, em vez de o banco estatal fazer retalho direto;<\/p>\n\n\n\n<p>Crit\u00e9rios de responsabiliza\u00e7\u00e3o pelos cr\u00e9ditos concedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Governa\u00e7\u00e3o mista e independente, com participa\u00e7\u00e3o de entidades privadas ou multilaterais, para mitigar interfer\u00eancias pol\u00edticas e introduzir disciplina de mercado;<\/p>\n\n\n\n<p>Crit\u00e9rios t\u00e9cnicos de avalia\u00e7\u00e3o de risco e sistemas transparentes de acompanhamento, mitiga\u00e7\u00e3o de riscos &nbsp;e recupera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p>Crit\u00e9rios de supervis\u00e3o&nbsp; pelo banco central- Sistema de indicadores prudenciais&nbsp; espec\u00edficos;<\/p>\n\n\n\n<p>Os exemplos internacionais mais eficazes mostram que a efici\u00eancia n\u00e3o depende de estatuto legal, mas de desenho institucional inteligente e bem contextualizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Criar um banco que seja simultaneamente estatal, descentralizado, com foco em MPMEs e capaz de cobrar eficientemente \u00e9, em qualquer parte do mundo, uma equa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Em Mo\u00e7ambique, onde o Estado ainda revela fragilidades institucionais significativas, essa dificuldade \u00e9 agravada. Por isso, a efici\u00eancia come\u00e7a por evitar erros de concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 Qual seria o perfil dos benefici\u00e1rios\/clientes de tal banco?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: Num modelo eficaz e sustent\u00e1vel, um banco de desenvolvimento n\u00e3o deve atuar diretamente como financiador de retalho, mas sim como institui\u00e7\u00e3o de segundo piso, que mobiliza recursos e financia programas estrat\u00e9gicos com impacto multiplicador. Esses fundos devem ser acompanhados por instrumentos financeiros adequados de mitiga\u00e7\u00e3o de riscos que v\u00e3o permitir uma maior abrang\u00eancia e inclus\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, os seus benefici\u00e1rios diretos seriam:<\/p>\n\n\n\n<p>Governos locais e centrais, respons\u00e1veis por executar programas de infraestruturas econ\u00f3micas e sociais;<\/p>\n\n\n\n<p>Institui\u00e7\u00f5es financeiras intermedi\u00e1rias (como institui\u00e7\u00f5es financeiras de desenvolvimento operando no retalho, cooperativas de cr\u00e9dito, sociedades de microfinan\u00e7as e at\u00e9 plataformas digitais), capacitadas para chegar a micro, pequenas e m\u00e9dias empresas (MPMEs);<\/p>\n\n\n\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es de incuba\u00e7\u00e3o de novas empresas, ag\u00eancias de desenvolvimento local, quando habilitadas para canalizar responsavelmente fundos orientados ao empreendedorismo, juventude, mulheres ou agricultura familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os benefici\u00e1rios finais \u2014 que o banco n\u00e3o financia diretamente, mas aos quais gera impacto \u2014 seriam:<\/p>\n\n\n\n<p>As MPMEs com potencial de crescimento;<\/p>\n\n\n\n<p>Jovens empreendedores;<\/p>\n\n\n\n<p>Promo\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o da mulher nos neg\u00f3cios;<\/p>\n\n\n\n<p>Cooperativas e iniciativas agroindustriais locais;<\/p>\n\n\n\n<p>Projectos de inova\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o econ\u00f3mica em zonas perif\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Este modelo de actua\u00e7\u00e3o reduz os riscos de inadimpl\u00eancia direta, evita sobreposi\u00e7\u00e3o institucional e permite maior efici\u00eancia na aloca\u00e7\u00e3o de recursos, desde que exista uma rede s\u00f3lida de parceiros operacionais e mecanismos de supervis\u00e3o descentralizada. A fun\u00e7\u00e3o do banco seria, assim, construir e alimentar essa rede, garantir a coer\u00eancia estrat\u00e9gica dos financiamentos e avaliar o seu impacto no desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 O Presidente da Rep\u00fablica tem feito um paralelo com a iniciativa dos \u201csete milh\u00f5es\u201d, para validar a necessidade de tal banco. \u00c9 uma analogia feliz, tendo em conta que os empr\u00e9stimos desse esquema tinham quase zero retorno para o Estado, perdendo o seu efeito multiplicador?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: A analogia com a iniciativa dos \u201csete milh\u00f5es\u201d \u00e9 compreens\u00edvel enquanto tentativa de mostrar preocupa\u00e7\u00e3o com o financiamento local e a inclus\u00e3o econ\u00f3mica. Contudo, do ponto de vista t\u00e9cnico e institucional, \u00e9 uma analogia arriscada. O programa dos sete milh\u00f5es fracassou precisamente porque misturava objectivos de inclus\u00e3o com mecanismos informais e fr\u00e1geis de cr\u00e9dito p\u00fablico, sem crit\u00e9rios claros de avalia\u00e7\u00e3o, &nbsp;instrumentos de mitiga\u00e7\u00e3o, &nbsp;&nbsp;responsabiliza\u00e7\u00e3o dos mutu\u00e1rios e com elevada interfer\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Repetir essa l\u00f3gica, mesmo sob uma nova designa\u00e7\u00e3o, seria caminhar para o mesmo desfecho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um verdadeiro banco de desenvolvimento n\u00e3o pode funcionar como um distribuidor de cr\u00e9dito popular, nem ser usado como instrumento de clientelismo. A sua fun\u00e7\u00e3o deve ser mobilizar e gerir recursos de m\u00e9dio e longo prazo para financiar programas com impacto transformador \u2014 como o desenvolvimento agroindustrial, a inova\u00e7\u00e3o empresarial ou a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u2014 operando atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es locais capacitadas e com mecanismos rigorosos de execu\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o de riscos, acompanhamento, controle e monitoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, em vez de repetir a estrutura do passado, a prioridade deve ser corrigir os erros cometidos e desenhar um sistema de financiamento descentralizado, tecnicamente s\u00f3lido e institucionalmente respons\u00e1vel. Isso implica uma nova cultura de cr\u00e9dito, assente na confian\u00e7a, mas tamb\u00e9m na disciplina, e com fortecapacidade de avalia\u00e7\u00e3o de resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 Um banco de desenvolvimento n\u00e3o seria um desperd\u00edcio, tendo em conta que o Estado j\u00e1 conta com o Banco Nacional de Investimento (BNI)?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: Apesar de ter sido criado com ambi\u00e7\u00e3o de apoiar grandes investimentos estrat\u00e9gicos, o BNI tem-se limitado a ser receptor de fundos p\u00fablicos de programas governamentais, sem capacidade t\u00e9cnica, vis\u00e3o estrat\u00e9gica ou rede operacional para os aplicar eficazmente. A sua actua\u00e7\u00e3o tem sido pontual, sem escala nem impacto, e sem qualquer inser\u00e7\u00e3o no financiamento do tecido econ\u00f3mico de base.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 apenas se j\u00e1 existe um banco estatal, mas sim: \u00c9 o BNI convert\u00edvel num verdadeiro banco de desenvolvimento? Com que miss\u00e3o? E, se for, em que condi\u00e7\u00f5es? Seria um banco 100% estatal? Atuaria em primeiro ou segundo piso? Teria capacidade interna, governa\u00e7\u00e3o e mandato para assumir essa fun\u00e7\u00e3o com credibilidade e sustentabilidade?<\/p>\n\n\n\n<p>O risco de tentar construir algo novo sobre uma base institucional fr\u00e1gil e carregada de problemas financeiros e de gest\u00e3o pode comprometer o sucesso de qualquer iniciativa futura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 H\u00e1 quem argumente que seria um passo em falso criar um Banco de Desenvolvimento quando ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente saldado o passivo de experi\u00eancias amargas na \u00e1rea financeira, como foi o BPD. Compartilha dessa opini\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: A experi\u00eancia do BPD deve ser analisada com rigor e com sensibilidade ao contexto em que essa institui\u00e7\u00e3o foi criada e operou. O BPD resultou da nacionaliza\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es financeiras coloniais, algumas das quais j\u00e1 tinham pr\u00e1ticas ligadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de pequenos neg\u00f3cios agr\u00edcolas. Contudo, logo ap\u00f3s a independ\u00eancia, foi colocado ao servi\u00e7o de uma agenda pol\u00edtica marcada por fortes constrangimentos: guerra civil, escassez de quadros, aus\u00eancia de mercados internos e um Estado ainda em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessas dificuldades, o pr\u00f3prio governo reconheceu as limita\u00e7\u00f5es do modelo do BPD e tomou a iniciativa de atrav\u00e9s desse banco de desenvolvimento apoiar a cria\u00e7\u00e3o da Gapi como entidade especializada focada nos desafios de promover a iniciativa empresarial privada, o surgimento de uma classe m\u00e9dia assente em MPMEs. J\u00e1 em v\u00e1rias ocasi\u00f5es enalteci a vis\u00e3o do ent\u00e3o primeiro-ministro, M\u00e1rio Machungo e da administra\u00e7\u00e3o do BPD, em particular Hermenegildo Gamito. Essa vis\u00e3o teve o m\u00e9rito de em vez de se criar uma coisa completamente nova, foi capaz de converter e consolidar o projecto da Funda\u00e7\u00e3o Friedrich Ebert (GAPI &#8211; Gabinete de Apoio \u00e0 Pequena Ind\u00fastria) que combinava capacita\u00e7\u00e3o e financiamento numa sociedade financeira nacional \u2013 Gapi,Lda. Ou seja, mesmo no seio de uma experi\u00eancia marcada por interfer\u00eancias pol\u00edticas e problemas de sustentabilidade, emergiu uma solu\u00e7\u00e3o inovadora e mais ajustada ao novo ciclo econ\u00f3mico. O BPD tamb\u00e9m foi chamado a financiar sectores como o agr\u00e1rio, duramente afectados pela guerra, assumindo riscos em condi\u00e7\u00f5es que ultrapassavam o controlo t\u00e9cnico de qualquer institui\u00e7\u00e3o financeira tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o desempenho de bancos de desenvolvimento, especialmente quando s\u00e3o inteiramente estatais, deve ser analisado para al\u00e9m dos indicadores financeiros, incorporando os contextos hist\u00f3ricos, pol\u00edticos e sociais em que operam. As li\u00e7\u00f5es do BPD n\u00e3o s\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es \u2014 s\u00e3o uma fonte de sabedoria para estruturar melhor as futuras.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 Acha que um poss\u00edvel Banco de Desenvolvimento tinha que ser 100% estatal ou seria importante compartilhar o risco com o sector privado?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: Um banco de desenvolvimento n\u00e3o precisa ser 100% estatal para ser uma institui\u00e7\u00e3o de interesse p\u00fablico. O que define esse car\u00e1cter n\u00e3o \u00e9 apenas a composi\u00e7\u00e3o do capital ou a presen\u00e7a de funcion\u00e1rios p\u00fablicos nos \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o, mas sim o compromisso da institui\u00e7\u00e3o com a concep\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de programas que respondam \u00e0s prioridades estrat\u00e9gicas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 desej\u00e1vel como recomend\u00e1vel que o banco tenha uma estrutura de capital mista, com presen\u00e7a do Estado, mas tamb\u00e9m de parceiros privados ou multilaterais. Isso permite:<\/p>\n\n\n\n<p>Partilhar o risco financeiro;<\/p>\n\n\n\n<p>Introduzir maior rigor t\u00e9cnico e disciplina de mercado;<\/p>\n\n\n\n<p>Fortalecer a independ\u00eancia institucional face a ciclos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O essencial \u00e9 garantir que o Estado tenha instrumentos claros para repassar recursos e contratualizar objectivos de desenvolvimento com a institui\u00e7\u00e3o \u2014 seja ela maioritariamente p\u00fablica ou n\u00e3o. Essa contratualiza\u00e7\u00e3o pode ser feita atrav\u00e9s de programas, fundos tem\u00e1ticos ou linhas de financiamento com crit\u00e9rios p\u00fablicos e metas verific\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria Gapi, com mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de experi\u00eancia, \u00e9 um bom exemplo de que \u00e9 poss\u00edvel conciliar miss\u00e3o p\u00fablica com governa\u00e7\u00e3o partilhada, num modelo onde a presen\u00e7a do Estado \u00e9 relevante, mas n\u00e3o totalizante, e onde h\u00e1 espa\u00e7o para actores que trazem inova\u00e7\u00e3o, exig\u00eancia e proximidade geogr\u00e1fica e cultural aos p\u00fablicos-alvo.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio, portanto, n\u00e3o \u00e9 assegurar controlo estatal absoluto, mas sim assegurar um mandato p\u00fablico claro, mecanismos de coordena\u00e7\u00e3o eficazes e uma cultura de responsabilidade partilhada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; CM \u2013 Ao inv\u00e9s de se criar de zero uma institui\u00e7\u00e3o financeira com o prop\u00f3sito de financiar o desenvolvimento, n\u00e3o seria menos dispendioso usar experi\u00eancias que j\u00e1 existem, como, por exemplo, a Gapi?<\/p>\n\n\n\n<p>AS: Antes de criar uma nova institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial analisar se n\u00e3o existe j\u00e1 capacidade instalada que possa ser refor\u00e7ada e melhor orientada. A Gapi \u00e9 um exemplo concreto: ao longo de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, consolidou uma rede nacional de servi\u00e7os financeiros para MPMEs, operando com flexibilidade como retalhista, grossista e parceiro t\u00e9cnico de programas p\u00fablicos e internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, para que a Gapi possa cumprir um papel ampliado como instrumento de financiamento ao desenvolvimento, \u00e9 fundamental manter a sua natureza institucional h\u00edbrida e n\u00e3o a converter numa entidade estatal. O seu car\u00e1cter de interesse p\u00fablico deriva n\u00e3o da posse estatal, mas da miss\u00e3o que assume atrav\u00e9s de contratos e acordos que regulam a aplica\u00e7\u00e3o de recursos em programas de desenvolvimento nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o refor\u00e7o da Gapi deveria prever a cria\u00e7\u00e3o de instrumentos complementares que o pa\u00eds hoje n\u00e3o disp\u00f5e de forma estruturada \u2014 como uma entidade especializada em capitaliza\u00e7\u00e3o de PME estrat\u00e9gicas. Empresas com potencial para integrar cadeias de valor em sectores-chave precisam de mais do que cr\u00e9dito: precisam de equity para crescer de forma sustent\u00e1vel. Uma subsidi\u00e1ria da Gapi, com governa\u00e7\u00e3o independente e enquadramento legal pr\u00f3prio, poderia preencher essa lacuna, tirando partido da vasta rede territorial da Gapi, do seu conhecimento do mercado e da proximidade com operadores com real potencial de crescimento. Esta estrutura especializada teria tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o de atrair investidores focados em instrumentos de capital (equity), e n\u00e3o apenas em cr\u00e9dito, criando um novo espa\u00e7o para capitaliza\u00e7\u00e3o de empresas estrat\u00e9gicas com transpar\u00eancia e rigor t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, aproveitar e refor\u00e7ar a Gapi n\u00e3o \u00e9 apenas uma op\u00e7\u00e3o menos dispendiosa \u2014 \u00e9 uma alternativa institucional mais eficaz, \u00e1gil e alinhada com as necessidades do pa\u00eds. Refor\u00e7\u00e1-la \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de valorizar o que j\u00e1 funciona e evitar o custo pol\u00edtico, financeiro e social de come\u00e7ar do zero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O economista Ant\u00f3nio Souto entra no debate sobre a cria\u00e7\u00e3o de um Banco de Desenvolvimento em Mo\u00e7ambique, levantando quest\u00f5es cruciais sobre sua viabilidade, impacto e necessidade. 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