{"id":1124,"date":"2025-02-24T06:22:36","date_gmt":"2025-02-24T06:22:36","guid":{"rendered":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1124"},"modified":"2025-03-17T17:14:22","modified_gmt":"2025-03-17T17:14:22","slug":"homenagem-ao-professor-bernhard-weimer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/f4sd.org.mz\/?p=1124","title":{"rendered":"Homenagem ao Professor Bernhard Weimer"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Jo\u00e3o Z. Carrilho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Consternado recebi a not\u00edcia do passamento do Professor Bernhard Weimer. T\u00ednhamos interesses comuns. V\u00edamos Mo\u00e7ambique como pa\u00eds diverso, mas unit\u00e1rio. Com longa hist\u00f3ria, mas r\u00e1pidas mudan\u00e7as. Com uma maioria de popula\u00e7\u00e3o rural, mas em r\u00e1pida urbaniza\u00e7\u00e3o. Com muita terra e recursos naturais, mas em grande parte adormecidos. Com maioria de popula\u00e7\u00e3o pobre. O nosso ponto de encontro foi sempre o tema da descentraliza\u00e7\u00e3o. Em que o cidad\u00e3o pudesse participar com responsabilidade e criatividade na constru\u00e7\u00e3o do seu futuro, estando ou n\u00e3o filiado em organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou econ\u00f3micas registadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com ele colaborei num trabalho que estava a desenvolver. O Professor Weimer foi generoso e insistiu em colocar o meu nome junto ao seu, no espa\u00e7o reservado a autores. Uma maneira de celebrar a nossa colabora\u00e7\u00e3o e amizade foi reler o trabalho, agora em forma de livro. Publicado pelo IESE em 2017, faz, por isso, quase uma d\u00e9cada. Apesar das mudan\u00e7as ocorridas, \u00e9 amplamente atual, tanto para leitores especializados, como para pessoas que pretendam fazer uma revis\u00e3o sobre quadros de an\u00e1lise de pol\u00edtica econ\u00f3mica e seus conceitos fundamentais. O leitor compreender\u00e1 porque opt\u00e1mos por um quadro de an\u00e1lise de poder e mudan\u00e7as. A sua tese principal \u00e9 que a descentraliza\u00e7\u00e3o, em vez de ser abordada como um mecanismo de penetra\u00e7\u00e3o destinada a servir a centraliza\u00e7\u00e3o, deve ter como finalidade responder \u00e0s necessidades e anseios dos cidad\u00e3os, prestando os servi\u00e7os necess\u00e1rios e ansiados, com eficiente aloca\u00e7\u00e3o de recursos e equitativa distribui\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios, nas condi\u00e7\u00f5es adaptadas a cada lugar do pa\u00eds de oitocentos mil quil\u00f3metros quadrados e popula\u00e7\u00e3o que cresce acima dos trinta e cinco milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o cabe, nesta homenagem, fazer o resumo do livro e das suas principais teses. O Professor Severino Ngoenha prefaciou o livro com a mestria que lhe \u00e9 caracter\u00edstica. Pretendo t\u00e3o s\u00f3 real\u00e7ar que, em geral, at\u00e9 agora tem sustentado o teste do tempo. Pretendo tamb\u00e9m, de forma breve referir algumas das li\u00e7\u00f5es que mais me marcaram nas dezenas de horas de conversa e escrita e que fui destilando nestes anos.<\/p>\n\n\n\n<p>1. As finalidades da descentraliza\u00e7\u00e3o podem ser diversas, mas devem ser orientadas a unir e n\u00e3o a fragmentar. A descentraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma panaceia. N\u00e3o resolve todos os problemas, menos ainda se as entidades descentralizadas n\u00e3o tiverem um cimento comum. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds n\u00e3o existe no vazio: tem pa\u00edses vizinhos, participa de um \u201cmercado\u201d mundial de materiais, produtos e ideias. A territorializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds depende da territorializa\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Todas as dimens\u00f5es do quadro de an\u00e1lise s\u00e3o din\u00e2micas, incluindo os factores fundamentais da hist\u00f3ria, geografia, sistema pol\u00edtico e for\u00e7as pol\u00edticas, econ\u00f3micas e sociais. Ocorrem tamb\u00e9m mudan\u00e7as nas regras de jogo formais e informais, no \u201caqui e agora\u201d e no quadro de atores da economia pol\u00edtica. O importante \u00e9 n\u00e3o perder de vista a finalidade de desenvolvimento participativo, inclusivo e respons\u00e1vel dos cidad\u00e3os e consolidar todos os avan\u00e7os alcan\u00e7ados, por pequenos que sejam. A homogeneiza\u00e7\u00e3o, partidariza\u00e7\u00e3o, oligarquiza\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o, a diminui\u00e7\u00e3o das vozes quotidianas que consubstanciam e resultam da infrapol\u00edtica podem levar a uma descentraliza\u00e7\u00e3o oportunista, que desvirtua a motiva\u00e7\u00e3o principal, de cria\u00e7\u00e3o de uma vida que valha a pena viver em cada lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>3. O processo de descentraliza\u00e7\u00e3o gera boas e m\u00e1s tradi\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o de recursos e distribui\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios. Mal conduzido, pode servir para consolidar a \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d de que o ganhador proporcional ganha tudo, fechando a porta \u00e0 inclus\u00e3o, atrasando o processo sempre que conveniente sob a capa da necessidade de gradualismo. Mal conduzido, infeta da mesma doen\u00e7a os diversos atores a todos os n\u00edveis, incluindo os atores que pretendem promover vis\u00f5es alternativas ou opostas de administra\u00e7\u00e3o do desenvolvimento. Pode mesmo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, conduzir \u00e0 retalha\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>4. As diferen\u00e7as entre lugares \u2013 sua hist\u00f3ria e geografia, suas regras de jogo informais e a aplica\u00e7\u00e3o local de regas de jogo formais, seus atores e suas alian\u00e7as \u2013 precisam de ser respeitadas. Assim se construir\u00e1 um pa\u00eds capaz de converter a diversidade em for\u00e7a. Capaz de usar bem a terra e viver em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Termino esta homenagem relatando um pequeno epis\u00f3dio. No nosso \u00faltimo encontro, antes do final de 2024, no Jardim dos Professores, convers\u00e1vamos sobre crit\u00e9rios para se considerar organizado um assentamento populacional. Apoiados na capacidade de sistematiza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica do Professor Weimer, a partir dos exemplos concretos de Mucatine e Bobole, cheg\u00e1mos a uma narrativa provis\u00f3ria: \u201c<em>se for poss\u00edvel chamar de longe um t\u00e1xi ou algu\u00e9m e esse t\u00e1xi ou pessoa for capaz de chegar ao lugar que lhe indicarmos com um m\u00ednimo de paragens de pedidos de informa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o esse lugar est\u00e1 organizado \u2013 ou, pelo menos, n\u00e3o \u00e9 ca\u00f3tico<\/em>\u201d. Porque isso ser\u00e1 o sinal de que as pessoas t\u00eam uma identidade com o lugar, s\u00e3o recetivas a \u201cvientes\u201d e t\u00eam confian\u00e7a em si mesmas. Deix\u00e1mos para um futuro encontro a discuss\u00e3o sobre legitimidade das autoridades locais e sobre a din\u00e2mica das alian\u00e7as tempor\u00e1rias entre for\u00e7as pol\u00edticas locais. Esse encontro n\u00e3o mais ir\u00e1 ocorrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem-haja, Professor Bernhard Weimer. As suas li\u00e7\u00f5es ficam connosco.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado pelo Instituto de Estudos Sociais e Econ\u00f3micos (IESE), o livro <em>&#8220;Economia Pol\u00edtica&#8221;<\/em> oferece uma an\u00e1lise profunda sobre o desenvolvimento socioecon\u00f3mico de Mo\u00e7ambique. Leia a obra completa aqui: <a href=\"https:\/\/www.iese.ac.mz\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/IESe-economia-politica.pdf\">IESE \u2013 Economia Pol\u00edtica<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Z. Carrilho Consternado recebi a not\u00edcia do passamento do Professor Bernhard Weimer. T\u00ednhamos interesses comuns. V\u00edamos Mo\u00e7ambique como pa\u00eds diverso, mas unit\u00e1rio. 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